Resenha – Garapa: quando o açúcar não é tão doce

Quantas refeições você já fez de ontem para hoje? Se preocupou em balancear as vitaminas, sais minerais, carboidratos, proteínas e gorduras consumidas? Por acaso reclamou da textura da massa do pão, do ovo que salgou demais, do cheiro mais acentuado do café ou até mesmo preferiu “comer fora” porque o que tinha sido servido não lhe agradou? Agora se imagine em outra realidade, essa a qual, seu número de refeições/dia cai de três para uma e suas únicas alternativas de alimentos são: leite (semanalmente, porém incerto), arroz e feijão (quando possível), água com açúcar (diariamente). Como você se sentiria depois de uma semana baseada nesta dieta? E um mês? E se durasse uma vida inteira e ainda se repetisse por outras gerações?

José Padilha evidencia no longa-metragem “Garapa” o cotidiano amargo de três famílias cearenses e a sua luta pela sobrevivência.

Assuntos como fome, miséria, subnutrição e a carência do exercício dos direitos constitucionais são abordados de maneira angustiante, evidenciando a indiferença com a qual os temas são discutidos na atualidade.

A dor, torna-se tangível através das imagens monocromáticas, repetitivas e reais. O que é explanado nada mais é do que a realidade de milhões de pessoas em todo o mundo.

Assista ao documentário completo:
Fonte: Canal Maurício Martins Charão

A subnutrição representa uma dieta deficiente dos nutrientes inerentes ao bom funcionamento do metabolismo e do sistema imunológico, como vitaminas, proteínas, carboidratos e sais minerais. Geralmente, ocorrida quando a alimentação é composta, basicamente, de gorduras e/ou carboidratos, nos casos evidenciados no longa-metragem exclusivamente de carboidratos (sacarose) na solução com água (H2O) denominado garapa. A consequência disto, está no surgimento de inúmeras doenças que comprometem, negativamente, a qualidade de vida dos indivíduos, como raquitismo e osteoporose,  gerando um problema de saúde pública grave.

Alguns fatores como a má gestão e alocação de recursos financeiros, a distribuição de renda absurdamente desigual, a corrupção ainda sobressalente e a abrangência e aplicabilidade ineficaz das políticas públicas, contribuem para a persistência deste cenário no Brasil. O controle da natalidade é visto como um tabu, ocasionado pelo desencontro de informações e alienação dos habitantes locais, agravando, ainda mais, a fome, a subnutrição e as doenças inerentes.

Como pode ser percebido, o programa Fome Zero, criado no governo Lula, fez-se presente em algumas das famílias, ainda assim de maneira insuficiente. O questionamento que surge é quanto a elaboração de uma estrutura de empoderamento social, de famílias que necessitam de ocupações rentáveis que os possibilitassem sair dessas condições subumanas e que, no futuro, não precisem mais de auxílios governamentais, pois obteriam autonomia.

Outro tópico proeminente diz respeito à infraestrutura das comunidades e habitações. Nos povoados apresentados, é notável a relação da falta de saneamento básico e controle das pragas urbanas com a exposição de risco para inúmeras doenças, como: dengue, malária, febre amarela, zika, chikungunya, leptospirose, verminoses, etc. Além de outras como: raiva e febre maculosa, devido à negligência quanto a prevenção e imunização dos animais locais.

Já nas primeiras cenas, a nudez evidenciada pelas crianças, na maior parte do tempo, demonstra a escassez de vestuários. Não vestuário no sentido moda, mas como útil e necessário. Desta forma, a exposição à microrganismos patogênicos torna-se ampliada. O desconforto às picadas de mosquitos, aparente.

Uma vida de sofrimento e o psicológico abalado originaram problemas de alcoolismo e tabagismo. É percebível a presença do álcool exacerbado pela figura paterna em boa parte das cenas, suscitando em situações de adversidade e opressão dentro do âmbito familiar. O machismo e as relações de gênero são fortes e apenas as mães se movimentam para conseguir o sustento.

Portanto, percebe-se que os fatores ambientais, fisiológicos e psicológicos são relevantes para prevenção e manutenção da saúde. Apesar da existência de inúmeras políticas públicas, a alocação questionável dos recursos e o superfaturamento de obras, medicamentos e alimentos reduzem a eficiência, eficácia e abrangência das ações. A falta de informação induz as pessoas à alienação e pode comprometer, ainda mais, o bem-estar e a qualidade de vida. E o pior de tudo é a indiferença, o anonimato, o não se importar. Também o preconceito e o “deixa para lá”.

Fonte da imagem de capa: Acervo Nacional

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